quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Uma família refeita

Por Laís Mari Rabelo

Emília nasceu quando sua mãe Sabrina Silva tinha apenas 17 anos e ainda estudava. O pai não quis saber da criança e fugiu com outra mulher antes mesmo do nascimento da filha. Os dois não eram namorados, apenas haviam “ficado”, “termo utilizado pelos jovens para definir um relacionamento sem compromisso”, explica a assistente social Juliana Farias Goncho.

Com bastante esforço, Sabrina criou a criança com ajuda de seus pais. Assim como 20% das crianças que nascem no Brasil, Emília nasceu quando sua mãe era adolescente e solteira, segundo dados da Pesquisa Nacional em Demografia e Saúde realizada em 1996.

Quando Emília completou dois anos, a mãe resolveu sair com as amigas pela primeira vez depois da gravidez. Conheceu e começou a namorar Evandro. Estudado e com bom emprego, o homem de 30 anos estava disposto a assumir Emília e criá-la junto de Sabrina. Já durante o namoro cumpria funções de pai, levava para a creche e ao médico. “Ele fazia questão de vestir a roupa de Papai Noel no dia de natal, só para ver Emília feliz”, lembra Sabrina.

Tudo o que Evandro fazia realmente tocava o coração da mãe de Emília. Porém depois de 5 anos de namoro o verdadeiro pai da criança apareceu. Sabrina relutou em aceitar que Júlio Ferraz Nascimento teria direito de visitar a filha. Mas depois de alguns meses, o homem por quem a Sabrina havia se apaixonado quando adolescente parecia ter se arrependido.

A decisão de romper o namoro com Evandro veio em seguida. Emília, então com sete anos e apegada ao padrasto, adoeceu. “Crianças sentem muito a falta da figura pai e mãe, muitos demonstram seu estado emocional com mudanças físicas de saúde, como febre e problemas estomacais”, ressalta a psicóloga Karla Rabelo.

A possibilidade de ver seus pais juntos novamente garantiu a melhora da menina. E em apenas seis meses Sabrina e Júlio casaram. Tiveram mais um filho, Artur. “Quero curtir toda a infância dele, já que não estive presente enquanto Emília era bebê”, conta Júlio.

Esta é uma história com final feliz, Sabrina diz que Emília está muito melhor agora. Na escola as notas melhoraram, a professora Marizabel Silvestre garante que depois que o pai voltou, a menina é outra. “Ela está desinibida e mais segura. Com certeza isso faz diferença para a auto-estima da criança”.

Aos 11 anos Emília brinca com Tony, o vira-latas que estava na rua e conquistou a menina ao ponto de querer criá-lo. Enquanto isso a avó da menina Milene Silva lembra como foi difícil o começo. “A nossa situação financeira não era ruim, mas queríamos garantir os estudos dos filhos”. Milene e o marido eram os donos da loja de roupas do bairro. Viajam para São Paulo todos os meses para buscar mercadorias. Era da loja que tiravam o sustento dos quatro filhos. Tinham carro, e casa própria. Os filhos estudavam, porém o dinheiro não era suficiente. E para cursar a faculdade, Sabrina teria que procurar um emprego.

O nascimento de Emília fez a rotina da família toda mudar. Para que Sabrina pudesse ao menos terminar o segundo grau, seu irmão mais velho trancou o curso de Administração durante um semestre para poder ficar com a menina enquanto a mãe estava no colégio. Já Milene precisou adiar a reforma da cozinha para comprar o enxoval da neta. “Mas conseguimos, somos uma família unida até hoje e Emília nos trouxe várias alegrias”.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Herdeiros do futuro: história de um pequeno sonhador

Por: Laís Clemes

Sonhar e desejar movem o ser humano a buscar um ideal, algo que lhe traga prazer, bem estar e qualidade de vida. Assim como muitos dos milhares de cidadãos brasileiros, as crianças anseiam o mesmo desejo: ser feliz e buscar algum objetivo na vida.

Segundo o artigo quatro do Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.

Porém, vivemos num país com grande índice de desigualdade social. Segundo dados do UNICEF de 2008, cerca de 78% das crianças pobres estão em risco social. Destas, 14% não frequentam a escola.

João Silva, 11 anos, é uma dessas crianças. Desde pequeno trabalha para ajudar os pais na roça. Trocou cedo a brincadeira pela enxada, a relação com as crianças pelo trabalho diário. Apesar da pouca idade, o pequeno sabe muito bem o que quer: “quando eu crescer, quero ser alguém rico, não para ter muito, mas para poder dar muito aos outros”, diz a criança.

As marcas de sua infância foram desenhadas por uma rotina dura de trabalho. Porém, para ele, a melhor recompensa é poder ajudar a família. Mais velho de seis irmãos, João toma as responsabilidades da casa, não liga ter que acordar cedo para ajudar os pais.

O presidente do Conselho Tutelar de Tubarão, Fernando Fernandes Antunes, diz que exploração do trabalho infantil não é responsável pelo maior número de casos com a intervenção do conselho. Mas salienta que esse é um dos casos mais complicados de se comprovar. “Muitos dos jovens que trabalham não estão ali forçados, mas sim por que querem ajudar a família e ter o seu próprio dinheiro”, explica o presidente. “Já tive caso de o menor fugir do lugar onde trabalhava para não ser impedido de trabalhar”, completa.

O Conselho Tutelar de Araranguá, com base no artigo quatro do ECA, há seis meses encaminhou o menino para a escola, a família, por não ter nenhum grau de instrução, não foi punida e nem julgada pelo crime de exploração infantil. João não pode mais ajudar os pais na roça. “Não sei por que fizeram isso, mas eu gostava. Aprendi com meus pais a dar valor às pequenas coisas, o que talvez não aprendesse na escola”, diz João.

Hoje João frequenta a escola pela manhã e à tarde, o conselho tutelar encaminha a criança para um projeto de socialização, como a Instituição Casa da Fraternidade em Araranguá, que há mais de duas décadas promove atividades que visam resgatar crianças marginalizadas socialmente. Histórias de risco social são recorrentes na casa. Hoje o projeto auxilia 112 crianças e adolescentes, por meio da arte e educação.

Na casa que frequenta, o menino não vê diferença entre ele e as outras crianças. A presidente da Casa da Fraternidade, Cátia Hahn, explica que o projeto para ter um bom resultado não pode trabalhar apenas com crianças em risco social, mas também deve lidar com menores que buscam apenas uma atividade. “Não separamos as crianças, pois não existe socialização se você separa as pessoas. Nós convivemos com as diferenças e elas que nos fazem crescer”.

Nesse ambiente, João esquece um pouco das responsabilidades que carregou durante anos nas costas. Ele faz diversas atividades: música, canto e aula de reforço. “Sem música a vida seria um erro”, já dizia o filósofo alemão Nietzsche. É ela que faz o menino sonhar. As letras das músicas mostram um mundo colorido que João até então não conhecia. “A música tem o poder de transformar, transpor os sentimentos, dar a sensação de viver algo que não é tangível”, explica o professor de música Renato Ronconi. Nos corredores da instituição que frequenta, João canta, ri brinca com os colegas. Sua roupa mais surrada seu andar tímido não são motivos para que ele deixe de sorrir e de sonhar. “Um dia serei advogado”, diz o menino.

(* O nome do menor apresentado na matéria é fictício)

A situação do orfanato

Por Eliana Maccari

Um bebê, duas crianças e dois adolescentes. Estes são os menores de idade que se encontram no orfanato Paraíso da Criança, em Urussanga. Em outros tempos, o abrigo já chegou a ter mais de 100 menores de idade. Hoje, com a nova Lei Nacional de Adoção, as normas judiciais são outras.

Segundo o presidente do Conselho Tutelar de Tubarão, Fernando Fernandes Antunes, o menor só chega ao abrigo após o encaminhamento do conselho. Casos de desestruturação familiar e de abandono são as maiores causas para a retirada do menor do lar. O conselho tenta todas as possibilidades para a criança manter o vínculo familiar, ainda que seja com parentes próximos ou distantes. Não obtendo êxito, o menor é encaminhado ao orfanato. Antunes ressalta que muitas crianças, mesmo em situação de risco, desejam estar junto com os pais.

“O pai pode beber, a mãe pode bater, se prostituir. Por pior que seja o pai e a mãe, as crianças querem estar com eles”, revela a psicóloga do orfanato Paraíso da Criança, Rosimere Meneghel.

A chegada ao abrigo é um dos momentos mais difíceis para o menor de idade. A maioria deles não entende o que está acontecendo. Rosimere explica que o estado emocional é bem afetado, havendo muito sofrimento. As reações, ao entrar no orfanato, vão desde angústia até rebeldia, demonstradas em pequenos gestos do dia a dia.

Um caso recente de rebeldia, citado por Rosimere, é de B. M., 8 anos. O menino está há três meses no abrigo, junto com a irmã L. M., 12 anos. Ele não estuda e não se dedica na escola. A psicóloga revela que constantemente ele diz que não vai melhorar enquanto não voltar para a casa dele. A questão do futuro é trabalhada pela psicóloga no orfanato, mas o tema é complicado, pois Rosimere sabe que o futuro deles é incerto. “Prepará-los para quê”, questiona ela.

Uma das mudanças na nova Lei Nacional de Adoção é sobre a permanência no abrigo. Antes não havia prazo. Hoje a criança pode ser mantida por no máximo dois anos e seu caso reavaliado a cada seis meses. Essa é uma decisão que muda o psicológico dos menores que passam pelo orfanato. No entanto, o preconceito é outra barreira. Segundo Rosimere, os menores têm vergonha de contar que moram no abrigo já que são alvo de piadas na escola. Geralmente recebem o apelido de “sem teto” dos colegas.

A zeladora do orfanato, Terezinha Camola, afirma que os menores rejeitam o abrigo porque não há autorização para eles saírem do local. O contato com o mundo fora do orfanato acontece somente quando as crianças estão na escola. Nos finais de semana parentes só podem passear com o menor mediante autorização do juiz.

A responsabilidade da adoção

Por Catarina Ko Freitag


Muitas vezes, ter um filho não é tão fácil assim. A maioria dos pais que querem uma criança são estéreis, têm problemas de saúde, ou já tiveram vários abortos. A solução é a adoção. Adotar uma criança é uma responsabilidade para o resto da vida, os pais devem estar muito cientes deste ato. Os pais têm que levar em consideração que a adoção deve resolver o problema de uma criança, que é o de encontrar uma família, e não para segurar as brigas de um casal. Aceitar a adoção de uma criança é uma tarefa difícil, principalmente para a mãe, pois durante a gravidez há todo um processo de reconhecimento da maternidade da mãe, ver a barriga crescendo, sentir um filho dentro dela. É uma sensação única. Porém o mais importante é dar amor, educação e carinho à uma criança, seja ela biológica ou não. Mariana de Souza, hoje é uma moça, trabalha, faz faculdade, tem tudo o que sempre sonhou, se ela não tivesse sido adotada há 19 anos, talvez nem existisse mais.

No Brasil a demora no processo de adoção é uma das principais causas de desistência nas filas. As etapas do processo são muito burocráticas, e em média as pessoas ficam mais de dois anos na fila de espera. Se por um lado há os pais que querem adotar um filho, existem outros que querem se livrar dos seus. Pais inconseqüentes geram os filhos, mas não dão os cuidados necessários que uma criança precisa. Nestes casos, entra em cena o conselho tutelar de cada cidade. É papel do conselho zelar pelo bem estar físico e psicológico da criança e do adolescente. Cabe-lhe fiscalizar denúncias de maus tratos, exploração sexual, pressão psicológica, trabalho infantil, negligência e abandono. Segundo o presidente do Conselho Tutelar de Tubarao, Fernando Fernandes Antunes, existem várias formas de denunciar uma família à instituição. Pode ser procura espontânea, pela central de atendimento Disque 100, por apontadores que flagram crianças vítimas de maus tratos infrequência escolar.

No caso de Mariana, seus pais adotivos queriam muito um filho, porém sua mãe era sangue O- e seu pai O+, dando problemas sanguíneos ao feto. Ela já tinha tido três abortos. “Minha mãe, que sempre foi muito católica, perguntava sempre à deus o que ela tinha feito de errado para não conseguir ter um filho”, lembra ela. Neste mesmo tempo, em uma comunidade vizinha, uma mãe alcoólatra, que já tinha dois filhos de pais diferentes, iria jogar seu terceiro filho, recém nascido, de uma ponte. “Ela estava muito alterada, dizia que não era para eu ter nascido, que tinha que terminar logo com aquilo”. Foi uma situação bem complicada.

O tio de Mariana, que já sabia que seu irmão queria muito um filho, tirou o bebê das mãos da mãe (que estava prestes à jogá-lo no rio) e o entregou ao seu irmão. Eles a adotaram com um mês de idade, a registraram como se fosse filha biológica, sem a papelada da adoção. Antunes admite que é muito comum que isto aconteça, porém adotar uma criança sem passar pelos processos adotivos é considerado crime. O fato é que Mariana teve uma família, e é muito amada e feliz. “eu tinha uma irmã biológica, mas ela não teve a mesma sorte que eu. Era dois anos mais velha, tinha cabelos loiros, olhos verdes, muito parecida comigo. Quando ela tinha 17 anos, morava em um abrigo no centro de Florianópolis, vivia sem a mãe há muito tempo, e era usuária de drogas. Uma noite ela foi atropelada, e o carro fugiu sem prestar socorro”, revela. Segundo Antunes, se o conselho estivesse presente naquela época, os dois filhos seriam tirados da mãe, por negligência, e seriam levados à algum orfanato.

“Não há nada mais gratificante para alguém do que ser chamado de mãe ou pai. É uma grande responsabilidade que adquire ao longo da vida. Filhos são uma dádiva de deus, e deve-se amá-lo ao extremo, não importando se são biológicos ou adotados, o que importa é a educação e o amor dado a eles. Lembre-se que para se adotar uma criança é preciso ter muita paciência, e não ‘escolha’ a criança, tente se imaginar primeiro no lugar delas”, relata a mãe adotiva de Mariana.

Entidade Nossa Casa faz a diferença

Por Emile Borges

Crianças que sofreram maus tratos, abuso sexual, com problemas na família, adolescentes que estão em situação de risco. É assim que chegam até a Nossa Casa, na cidade de Criciúma.

Felipe chegou na entidade há um mês, por sofrer maus tratos do seu padrasto. Hoje o menino passa por um acompanhamento com a psicóloga da casa, pois é uma criança com traumas, “ele fica com muito medo, é assustado e precisa de cuidados especiais” diz a psicóloga da casa Renata Cardoso.

Já os irmãos, João, Larissa e Lucas estão na entidade há algum tempo, porque a família está passando por sérios problemas. Atualmente a entidade está abrigando doze crianças, elas ficam em tempo integral, algumas vão a escola e depois retornam.

A entidade beneficente nossa casa é uma entidade não governamental, sem fins lucrativos que desenvolve um trabalho diferenciado na região. A casa atende crianças de adolescentes de 0 a 18 anos, meninas e meninos que podem estar em situação de risco social e familiar.

É através do Conselho Tutelar ou ordem judicial que as crianças chegam até o abrigo e ficam ali por tempo indeterminado, até que mediante determinação judicial são recolocadas na família ou em família substituta. As crianças que estão na entidade passam por um acompanhamento com a assistente social Simone Souza. “Nós fizemos um relatório de cada criança e da sua família, enquanto elas estão na entidade e quando voltam , é feito uma preparação para que a família possa receber a criança novamente” .

Há crianças que ficam na entidade para a adoção, como é o caso do bebê Gabriel de oito messes. A futura família esta passando por uma avaliação para recebe- ló em casa. Essas famílias são encaminhadas através do Fórum onde preencheram um questionário para a adoção.

A entidade conta com quinze funcionários que trabalham em dois turnos, para um melhor atendimento as crianças. Sandra Machado trabalha na casa há quatro anos e nos relata: “Aqui é a minha segunda casa, essas crianças são como se fossem meus filhos , quando eles saem daqui, bate um aperto no coração. Fizemos de tudo para que as crianças sintam-se em casa. Elas acordam tomam um café delicioso, umas vão para e escola outras ficam na entidade, fizemos brincadeiras, contamos histórias . A nossa alegria é ver o sorriso estampado nas expressões das crianças”

Segundo a coordenadora da Entidade Nossa Casa, Maria Carmen Búrigo, o maior objetivo da casa é fazer com que as crianças e adolescentes que ali estão, possam ter uma formação social para serem inseridos na sociedade .

A casa mantém-se através de doações. As principais dificuldades são a falta de fraudas, leite e utensílios de limpeza. A Nossa Casa está aberta para visitação das pessoas todos os finas de semana das 14:30 às 16:30 horas.


*Os nomes das crianças contidas na matéria são fictícios.

Uma Vida Perdida

Por Angelica Brunatto

A droga está cada vez mais presente na nossa sociedade. Ela destroi laços familiares e a vida da pessoa. Deixa uma família desestruturada. Por causa dela é grande o número de pais que não dá valor aos filhos, que os agridem e às vezes até os abandonam.

De acordo com o presidente do Conselho Tutelar de Tubarão, Fernando Fernandes Antunes, “a droga pode trazer conseqüências graves para a família. Além de destruir os laços, quando usada na gravidez traz riscos à saúde do bebê”. Ele ainda complementa que pais drogados negligenciam as crianças.

As drogas levaram os pais de uma criança a abandoná-la em uma loja em Tubarão. O casal estava na cidade há poucos dias e o bebê era recém nascido. Junto aos pertences da criança, foram encontradas drogas. Os pais foram presos e a criança encaminhada a uma família provisória.

Boa vontade e determinação são os ingredientes necessários para a recuperação de uma pessoa dependente das drogas. Um exemplo, para mostrar essa realidade, é o do Desafio Jovem, localizado na cidade de Tubarão. O local começou a funcionar em 1991, quando o fundador, Sandro Guerreiros, voltou de um lugar semelhante na cidade de Criciúma. Na época, com 17 anos, ele decidiu procurar ajuda. Como conta o coordenador do Desafio Jovem, Fábio Machado de Medeiros, Sandro procurou ajuda sozinho. “Ele foi à Criciúma a pé para procurar tratamento”, revela. Hoje o homem tem 38 anos de idade.

O tratamento desenvolvido funcionou, Sandro decidiu abrir uma casa para abrigar pessoas com dependência química em Tubarão. No local, uma série de atividades envolve esses internos, que devem permanecer na casa por pelo menos nove meses. Entretanto, para que o tratamento funcione, é preciso que o dependente queira melhorar. “A pessoa precisa querer ajuda para que o trabalho possa ser feito”. Enquanto estão no Desafio Jovem, os internos devem cuidar do local onde vivem. Uma das tarefas propostas pelos membros do Desafio é fazer os moradores trabalharem para poder viver.

Durante o tempo em que permanecem na casa, os internos participam de reuniões, que cuidam da parte da espiritualidade, conscientização, e também oferece conselhos aos dependentes. Essas reuniões acontecem três vezes ao dia. Os aconselhamentos são feitos por psicólogos, que fazem também um acompanhamento individual.

INTERNOS

Nos primeiros anos de existência, o Desafio Jovem trabalhava com 80 internos. Hoje vivem 28. Entretanto a capacidade da casa é de 20 dependentes. Eles têm o direito de desistir do tratamento em qualquer etapa. “Basta eles se sentirem prontos para isso”, revela Fábio.

O Desafio atente pessoas das mais diferentes idades. Atualmente a faixa etária está entre 17 e 50 anos. Grande parte delas são reincidentes. Pararam o tratamento, e voltaram a conviver com as drogas. Segundo o coordenador do local, “a droga acaba com a vida da pessoa”, que geralmente tem algum problema.

Ninguém que está sob tratamento tem autorização para sair da casa, a não ser que tenha que resolver algum problema urgente. Mesmo assim, deve ir acompanhado de algum funcionário do local.

As visitas também são restritas. O interno só recebe visita dos familiares a cada 15 dias, nos domingos. É apenas esse o contato que eles têm com a família.

UMA HISTÓRIA QUASE FELIZ

F.J é interno reincidente do Desafio Jovem. A primeira vez não chegou a completar o tratamento. Saiu da casa no sexto mês. Procurou ajuda aos 18 anos, sete anos depois de ter começado a fumar.

O cigarro abriu portas para que começasse a usar outras drogas, como a maconha, cocaína, tanto injetável quanto cheirada. F.J diz que já chegou a usar drogas mais fortes, como o crack e alguns medicamentos.

Na família de F.J já haviam outras pessoas que faziam uso dessas substâncias. Influenciado por primos, F.J começou a fumar. Tinha vontade e curiosidade para experimentar. “A gente só usa porque a gente quer, mas sempre acaba influenciado”, alerta.

Antes de entrar no Desafio, F.J já foi preso por assalto por causa da droga. Entretanto foi liberado pela juíza, que entendeu que ele queria mudar. Por iniciativa própria foi parar no Desafio Jovem. Na época, o rapaz tinha 18 anos e nos seis meses que permaneceu internado conseguiu uma recuperação.

“Depois que cheguei aqui minha vida mudou, eu não tinha mais vida”. Ao sair do Desafio Jovem ele começou a trabalhar e ter uma vida nova. Entretanto, após algum tempo voltou a usar drogas outra vez. Ele também era noivo há um ano, mas o vício acabou com o relacionamento.

A noiva desistiu do casamento por medo de ele não parar mais. E então F.J voltou para o Desafio para tentar acabar com a dependência. Agora ele garante que vai cumprir os nove meses de tratamento.

Hoje F.J tem 23 anos, perdeu uma adolescência por causa da droga. Agora, reconsquista tudo o que perdeu, inclusive a noiva. Recebe visitas na casa somente da mãe e da irmã, e garante que o relacionamento com a família mudou. Um dos sonhos de F.J é poder construir a própria família.

Quando falta o amor


Por Lisiane Back

Abandono, descaso, maus tratos. Esses são os principais casos atendidos pelo Conselho Tutelar. Histórias que impressionam e muitas vezes parecem não ser reais. Pais drogados, mães prostituídas e filhos deixados de lado. Crianças indefesas, passando fome, apanhando, sofrendo abuso sexual e sem receber carinho e atenção. Pequenos cidadãos sofrendo dentro das próprias casas, lugar que deveria ser o porto seguro de cada um.

O presidente do Conselho Tutelar de Tubarão, Fernando Fernandes Antunes, conta diversos casos que acompanhou no conselho. Muitos impressionam. Entre eles, a história da menina de 10 meses, com problemas sérios de coração e que a mãe se recusava a procurar atendimento médico.

Quando avisados do caso, procuraram imediatamente a família da criança. A mãe estava em casa com a menina. Antunes pediu para que a mãe arrumasse a coisas, que o conselho as levaria para Florianópolis, onde a menina receberia atendimento especializado. A mãe se recusou a levar a filha naquele momento. Então, foi avisada que na manhã seguinte seria obrigada a seguir com a menina para Florianópolis. Assim ocorreu, embora a mãe tenha resistido e seguido contra vontade. Após a consulta médica e informada quanto ao diagnóstico do bebê, ele foi imediatamente internado no hospital. O caso era grave. A mãe permaneceu com a criança no hospital por alguns dias e retornou para Tubarão, deixando a filha no hospital.

Tomando conhecimento do fato, Antunes tentou procurar pela mãe, mas não a encontrou mais. Situação delicada, descaso dos pais que abandonaram a criança no hospital. Depois de alguns dias, infelizmente o bebê veio a falecer. E a mãe estava desaparecida. Onde estava o sentimento materno? É difícil de compreender, diz Antunes.

Situações semelhantes acontecem todos os dias na sociedade. E o trabalho de profissionais como Fernando é de fundamental importância para auxiliar estas crianças, inocentes, indefesas, que estão à mercê de pais incapazes de dar carinho e atenção para um ser que tem o próprio sangue.

No município de São Ludgero, o Centro de Educação e Cidadania (CEC) garante atendimento a crianças e adolescentes que se encontram em situação de risco social. O projeto surgiu da iniciativa do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e atende crianças encaminhadas pelo Conselho Tutelar e pela Vara da Infância e Adolescência. As 75 crianças que permanecem no CEC, em período integral, são acompanhadas pelo conselho tutelar, psicóloga e professores.

Uma missão árdua, que requer dedicação. Mas também gratificante. Assim é o trabalho dos profissionais que atuam na instituição. Oferecer aos pequenos cidadãos melhores oportunidades é o principal objetivo do projeto. Aulas de música, dança, oficinas de artesanato, computação e demais atividades fazem parte do dia a dia das crianças. Segundo a professora Salete Venturiano, muitas das crianças, quando chegaram no CEC, tinham problemas com higiene, não se alimentavam direito e tinham dificuldade na escola. Mas com o passar do tempo, foram melhorando, e hoje são crianças que brincam, estudam e se divertem entre as demais.
“O resultado é muito positivo”, afirma Salete.

Profissionais como Antunes e os que atuam no CEC são apenas alguns exemplos de pessoas que se mobilizam para ajudar crianças e adolescentes. O trabalho de cada um deles é uma luta diária. “Uma luta em prol da sociedade e que só vai acabar quando a própria sociedade entender o valor e verdadeiro amor que uma criança deve receber”, alerta Salete.